quinta-feira, 17 de março de 2016

Via Leiturinha: Não escolhemos ser pais! Aconteceu...

Divulgação/Leiturinha

Coluninha | Por Roberta Ecleide.

Muitos de nós viemos ao mundo sem sermos esperados, sem planejamento. Mentira dizer, porém, que, por este motivo, alguém está fadado a ser menos filho. Ou que os desejados serão agraciados com uma vida sem agonia. Nem uma coisa nem outra, mas, em momentos tão idealizados como os atuais, qualquer coisa que não venha assignada pela vontade e por imensa demonstração de felicidade, é moralizada como errada, inadequada, etc.
Bem, descobrimos que estamos grávidos – com ou sem plural, é uma notícia e tanto! E vêm as mais difíceis ideias: não estou preparado (a), será que vou dar conta? Será que vou ser julgado (a) (pela minha idade, por já ter outros filhos, por ser solteiro(a), por meus familiares)?
E no meio disso tudo, dessas tantas ideias, a criança que se desenvolve lentamente no ventre. Por vezes, a duração lenta é um bom momento de reflexão.
Pais desavisados não estarão, porém, menos compromissados! Isso porque é na lida do dia-a-dia que se constrói, gradativamente esta função, de ser mãe/de ser pai.
Nesta lida, crianças imaginariamente desejadas e as inesperadas, todas deverão ser educadas e ensinadas a sobreviver e a criar formas para suportar a agonia de viver sabendo-se que se vai morrer. E que é para todos, todos os vivos morrem, absolutamente.
A romantização (transformar uma narrativa em romance) da maternidade e da paternidade traz um custo muito alto para os meros mortais, pais e mães de todo dia. Temos que pensar sobre esta situação com muita delicadeza e construir um olhar um pouco mais crítico a respeito.
Primeiro, é preciso entender que os humanos têm uma necessidade enorme de segurança, dado que nascem todos desamparados, sem modelos, sem códigos prontos. Assim, é com os outros ou através destes que conseguem, bem gradativamente, na lida de todo dia, construir pequenos pontos de apoio que, uns sobre os outros, apoiam a suportabilidade ao viver.
Depois, mas decorrente deste comentário acima, temos, todos, pouca habilidade para dar conta da complexidade humana. Cada um de nós tem muitas facetas e somos todos diferentes. Logo, parece ser mais seguro enxergar as coisas (pessoas, inclusive) a partir do viés bidimensional, sem densidade e sem conflito. Isso dá segurança, qualquer confronto com a complexidade é tido como erro, fatalidade ou equívoco causado por esta ou aquela ação. É um equívoco, ao invés de se entender que a complexidade humana traz conflitos e ambivalência, inevitavelmente.
Em seguida, também por consequência, começa a certeza da ilusão de que há alguém que consegue dar conta de ser pai e ser mãe sem problemas ou “tirando de letra” as condições difíceis. Daí, cada um que não consegue é porque não é competente o suficiente ou porque x ou y – sempre uma causa de natureza linear (tipo A causa B) que dispensa qualquer complexidade ou conflito. Ora, claro que isso não existe! Mas as imagens das novelas, das séries e de muitas estratégias midiáticas, que não contam as mazelas de todo-dia, porque todo-dia tem pouca ou nenhuma graça, não contam que, de verdade, não há glamour…
Logo, pais e mães foram também capturados na era do espetáculo, dos selfies e das inúmeras ideias de que, se não são felizes a cada mamada, a cada chute de bola ou se a cada gargalhada da criança não for um momento de extrema felicidade, ou não se é pai/mãe de verdade ou há algo errado – depressão, talvez? Da mesma forma, se a criança não está indicando, a cada passo, cada gesto ou palavra, que é muito feliz em ser criança, também haverá algo errado – depressão, autismo ou algum outro transtorno?
Por estratégias midiáticas, gostaria de destacar as várias formas que os seres humanos usam para divulgar seus achaques, vontades e expectativas – através de ideias. Ou seja, estratégias midiáticas são idealizações que, em nossos dias, se servem das expressões midiáticas (TV, rádio, internet, etc) para dizer dos anseios de não sofrer a agonia de viver. De certa forma, tais estratégias midiáticas brincam com a ideia de que não se morre… a não ser por irresponsabilidade de não cuidar da própria saúde ou por azar!
Bem, nada disso é real. Nada disso condiz com o dia-a-dia de cada pai e cada mãe que, com seus defeitos e suas qualidades, fazem o melhor que podem com o que têm. Não é fácil, mesmo. Para ninguém que seja feito de carne e osso, desejos e contrariedades, vontades e desistências. Ou seja, viver é difícil por ser complexo e educar crianças não é diferente.
Menos culpas, pois, e mais responsabilidades. Aconteceu? Bem, vamos lá. Um dia de cada vez, sem (des)culpas, cada adulto ou jovem vai aprender a ser pai e ser mãe no cotidiano das ações: se estiver presente, se construir junto, se for apoiado socialmente. Filhos são nossos sonhos de eternidade…

Roberta Ecleide de Oliveira Gomes Kelly é psicanalista, doutora em Psicologia Clínica e pós-doutora em Filosofia da Educação. Fonte: Leiturinha. EMT - Divulgação

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