sexta-feira, 29 de julho de 2016

Por Mais Malalas E Menos Barbies - Rosângela Silva - Revista Dávila


Outro dia lia uma matéria dizendo da influência dos brinquedos oferecidos na infância para meninos e meninas e do quanto eles contribuem para o desenvolvimento da  engenhosidade e do espírito científico. Enquanto os brinquedos dos meninos promovem ação, movimento, construção, os das meninas direcionam para os cuidados com a casa, com  a cozinha, com a beleza.
Isso me despertou para escrever sobre as formas com que os pais educam os meninos e as meninas e a repercussão disso nas suas vidas futuras.
Educar filhos meninas ou meninos dá um trabalhão danado. Proponho aqui pensar sobre as famílias, a escola  e a educação das meninas. Sobre os meninos escreverei outro artigo.
E assim algumas questões me vêm à mente: há diferenças entre educar meninas e meninas? O que pensam as famílias? E os educadores? Que comportamentos são incentivados ou reprimidos ao educar cada um dos gêneros? A forma de  educar cada gênero realmente mudou no decorrer dos tempos? Pais se dedicam mais às filhas? Mães tem uma admiração especial pelos meninos? Em que isso se fundamenta? Que tipos de comportamentos estão impregnados nas famílias que alimentam a “guerra dos sexos”?
É preciso que nos livremos da lista de papéis que se impõe ao gênero feminino: estar sempre bonita, ser feminina, ser sensível, ser bem comportada, ser pacífica, ser delicada, ser prestativa e acrescentemos na lista, pontos importantes para seu sucesso na vida moderna  tais como: ter objetivos a serem seguidos, ser empreendedora, ser criativa, ser pesquisadora, ser construtora, ser forte, ser batalhadora, ser corajosa, ser independente etc.
Não se trata de substituir uma lista pela outra. Trata-se de ampliar o olhar para que o se espera de uma mulher nos dias de hoje.
É sabido que existem diferenças fisiológicas e consequentemente psicológicas entre meninos e meninas. As meninas amadurecem mais cedo que os meninos, eles têm uma capacidade mais racional, melhor compreensão espacial e geométrica, porém elas têm maior facilidade de comunicação e expressão, intuição e zelo. Além disso, as meninas têm em volta de si, mitos que as rotulam de várias formas. Um exemplo: mulheres têm fama de serem consumistas, o que leva a um pré-conceito de que gastam desmedidamente, são impulsivas e têm falta de critérios para fazer escolhas. Outra situação é a fama de serem mais desequilibradas, mais tendenciosas e muito emotivas.
Em algumas situações vemos pessoas agindo impensadamente reforçando  a ideia da mulher ser o “sexo frágil”, como acontece , por exemplo, quando pedimos a um menino para ajudar-nos a empurrar uma mesa e não fazemos o mesmo pedido a uma menina, como se ela fosse incapaz de tal gesto. Isso também ocorre quando dividimos tarefas entre meninos e  meninas e estampamos nossa predileção dando os afazeres domésticos às meninas.
A sexualidade é outro assunto divergente em muitas famílias. Em muitas delas,  o menino é incentivado a ser o conquistador, o “pegador”, o que se aventura em saídas, enquanto isso as meninas são podadas.
Muita coisa já mudou e hoje a sociedade está se abrindo para equalizar os papéis, porém muito ainda precisa ser feito para que haja uma melhor conscientização das pessoas sobre a igualdade dos gêneros, sejam eles quais e quantos forem.
Ainda há preconceito sim, sobre a roupa curta, sobre os decotes, sobre  a cor dos cabelos, sobre o jeito de sentar, andar e falar como se isso representasse o caráter e os valores da mulher.
A ditadura da beleza, os ditames da moda, aprisionam as meninas e as conduzem  a uma avalanche de cobranças e dores emocionais imensa. E então, o mundo das meninas passa a ser, não tão cor de rosa, como muitos pensam.
A internet e as redes sociais também aprisionam e de certa forma cerceiam, quando dogmatizam e ditam padrões, quando divulgam conceitos distorcidos, quando replicam vídeos desvalorizando a mulher, quando publicam a piada machista, quando expõem a mulher como objeto.
A publicidade se dedica a vender ideias distorcidas e que interessam ao mercado.  Quer vender produtos e ideias e lucrar com isso. É implacável em seu convencimento.
Educar as meninas para que respeitem seus corpos, suas vontades e seus sentimentos e não sejam manipuláveis é obrigação da família que não pode fechar os olhos, nem ser omissa. É necessário não estimular ações precoces, dar autonomia na medida da responsabilidade, orientar para que tenham compromisso com a sua reputação e seus valores, atentar aos seus interesses como forma de acompanhar seu desenvolvimento e torná-lo saudável.
Pode parecer excessiva e até drástica a citação a seguir, mas há é fato que a educação das meninas no sentido mais amplo, leva a resultados positivos no que diz respeito à redução da natalidade e  da mortalidade, diminuição de  doenças e aumento da qualidade de vida de uma sociedade.
Sendo assim, cabe também ao governo e à escola fazerem suas parte. Educadores bem preparados atuam a fim de diminuir o entendimento de superioridade ou inferioridade dos gêneros, de desmistificar o que pode ou deve fazer cada um dos gêneros, incentivam o respeito e as ações complementares entre meninos e meninas, evitando clichês e rótulos estupidamente estabelecidos, não subestimam capacidades, repudiam ações que denigrem o papel da mulher e lutam incansavelmente para estabelecer cortesia e respeito em suas salas de aula.
Só a educação transforma e promove as mudanças que desejamos. Só a educação pode mostrar os benefícios de termos uma sociedade mais igualitária e que luta pelo bem comum, independente de gênero, raça ou classe social. Só a educação poderá criar mais Malalas e menos Barbies.

Rosângela Silva - www.mrosangela.blogspot.com - mrosangelasilva@gmail.com. Fonte: RevistaDavila. EMT - Divulgação

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